domingo, 4 de setembro de 2011

Desespero no escuro

         Era uma noite de julho. De repente tudo se apaga. Nada se vê, além dos faróis dos carros que passam pelas ruas em busca de alguma explicação. Ou simplesmente pessoas voltando pra suas casas. Procura-se uma vela, uma lanterna, nada encontra. A única salvação (momentânea) é a lanterna falha produzida pelo aparelho celular prestes a descarregar.
        Sem bateria no telefone, sem energia, sem ninguém para distraí-la. A procura por uma vela não cessa. Mesmo que seja um pedaço... E isso então é o que é encontrado entre jornais e revistas velhos em uma gaveta de escrivaninha.
        No desespero, acende então o fogão. Todas as bocas. Tudo que produza luz e faça diminuir o suor produzido pelo medo e desacelere as batidas frenéticas do coração. Algo tão banal passa a ser vital. O celular, então, dá sinal da pouca bateria que lhe resta. Vai até a torneira para lavar o rosto e quem sabe assim diminuir a ansiedade... Nada de água. Certo, agora é a hora que o desespero aumenta. Os carros param de passar na rua, e a energia nada de voltar... Aonde foi todo mundo?
        Provavelmente famílias reuniram-se em volta de velas acesas e aproveitaram o momento para contar histórias e darem risadas enquanto tudo não volta ao normal. Tal pensamento só aumenta o desespero causado pela solidão. Nada de área no aparelho celular para ao menos telefonar para alguém e se distrair. No silêncio, um barulho estranho ecoa...
        Voz assustada, voz de menina. Início de um grito. Interrompido, abafado. Corre então para ver o que é, e o celular não agüenta mais. Descarrega. O único jeito é adaptar-se à escuridão nessa casa cercada por histórias... Outro grito-gemido corta então o silêncio subitamente. Dessa vez, abafado com mais precisão. Corre.
        Em frente à casa há uma rua sem saída, por onde passa um carro e graças a luz do farol, é possível avistar então, uma menina prestes a ser violentada. O homem que a cerca, alto, robusto, covarde, quase a impossibilita de respirar. Tenta gritar, pedir socorro, mas assim como a noite escura, onde nada se vê nada se ouve de sua boca. A euforia toma conta. Suores, tremores. Ninguém na rua. Ninguém veria o desespero no escuro.
        A solidão e a falta de luz trouxeram uma coragem. Não se sabe bem como, mas a mulher sozinha e sem luz, corre desesperada pela casa e procura por algo em gavetas do seu falecido pai. Surge uma arma. Ela sabia que seu pai a guardava, porém, nunca o viu tirá-la de lá. Dizia que deveria ser usada apenas em último caso e em legítima defesa. O que mais poderia ser feito em tal situação?
        Uma motocicleta passa e o homem esconde a menina ainda mais no canto, fingir estar urinando. A mulher com a arma, desesperada, tenta ligar novamente o celular em busca de luz, em busca de justiça. Ele retorna ao seu chamado e ela sabe que não durará muito tempo. Corre, abre a porta, e se esconde na escuridão. A menina reluta, mas não havia mais nada que ela pudesse fazer.
        O homem então começa a fazer movimentos estranhos e começa a se despir. A menina se desespera ainda mais e a mulher corre. Em um súbito, um clarão de farol em outra rua. Os olhos estranham a luz e a arma apontada surge. Não há mais tempo a perder. O homem tenta continuar, um brilho de esperança aparece nos olhos da menina ao avistar a mulher.
        De volta ao escuro, o celular ressurge, a mulher aponta em direção à menina. Frágil, assustada. O homem então a agarra com mais força e não demonstra desejo em parar. A mulher grita, faz um alerta, ele saca um revólver. Não há mais o que pensar só um dedo a pressionar. E foi isso o que fez o silêncio ser cortado com a queda daquele corpo forte no chão e uma menininha chorando em meio a soluços.
        A cidade ressuscita. A luz volta. Aos poucos, as lâmpadas dos postes começam a acender. Pessoas falam. Os olhos da menina salva e da mulher que a salvou se encontram. A escuridão se foi e levou com ela aquele homem. O desespero se foi e com ele, os suores e tremores. Agora é só esperar, a justiça ser feita. Outra noite escura, medrosa e desesperada como aquela... Nunca mais!

Belma Andrade 

-Conto escrito durante uma noite de blackout. 

Um comentário:

  1. Minha querida, você devia ter entregado esse conto a Botelho! o/
    Arrasou!

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