sábado, 25 de junho de 2011

A vida?

Ah, essa sim é uma caixinha de surpresas! Nos pega engolindo palavras soltas ao vento anteriormente. Prega-nos peças. Nos apresenta pessoas indispensáveis e nos faz dispensar outras tantas. Nos mostra caminhos múltiplos e diversos e ainda tem a audácia e nos fazer escolher o que é ou não o melhor! Espera de nós e nos cobra preços altíssimos por atitudes e pessoas e até nos faz perceber que a controvérsia é, muitas vezes, a chave para a porta de entrada num mundo turbulento e conturbado. Nos deprime, entristece, decepciona, magoa, machuca... Mas nos mostra que só aprendemos assim. Porque o que nos é dado fácil, nos é tirado fácil também... E com isso tudo e muito mais ainda somos obrigados a sobreviver e seguir sistemas e quando estes não são seguidos, nos passa a perna e lá no fundo nos vemos novamente obrigados a nos levantar e a recomeçar todo o processo... This is it!

Belma Andrade

sexta-feira, 24 de junho de 2011

- Que horas?


Vai fazer um ano. Era uma noite de sexta-feira. Quase madrugada e estava chovendo. Pedro já deveria ter voltado do trabalho. Às vezes enfrentava transito, mas eu insistia em esperá-lo para dormir. Sem falar que as crianças faziam o mesmo porque ele sempre trazia bolinhos da padaria ao lado do seu trabalho para elas.   
            Telefonei para o seu trabalho, na intenção de saber se teria havido algum contratempo na empresa ou se alguém podia me dizer a que horas Pedro saíra. Ninguém atendeu. Uma leve preocupação tomara conta do sono. Pensei em algumas possibilidades, mas procurei me acalmar para não demonstrar às crianças. “Ele não demoraria mais”, pensei.
            Quando não aguentava mais, abri a porta com as crianças no meu encalço e vi brotar um sorriso no rosto da Juninho quando viu Pedro vindo na outra rua, prestes a atravessar a esquina. Como sempre, o pacote de bolinhos em mãos e sorrindo para as crianças. Foi abordado por um transeunte lhe apontando o dedo no relógio e perguntando a hora. Acreditamos que era apenas isto.
            Surgiram mais dois homens. Altos, covardes. Empurraram o Pedro para uma rua sem saída, logo na esquina. Mandei as crianças entrarem e o esperarem lá dentro. Escondi-me no portão. Vi que o homem que lhe solicitou a hora, o segurava firme enquanto os outros o revistava. Batiam. Engoli o choro e o eco do meu silêncio que gritava por dentro. Não adiantava tentar reagir. Avistei uma arma.
            Meu marido. Pai dos meus filhos. Meu companheiro. Até a hora em que a hora lhe fora solicitada. Ele já não o era mais. Apenas contorcia-se de dor. Ainda chovia, mas eram insignificantes as gotas gélidas que desciam pelo meu rosto, misturando-se às lágrimas de revolta e dor que por ele rolavam. Estava feito. O que roubaram, não vi. Só a vida, que senti. A tiros.


Belma Andrade

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Já vivi de várias formas essa vida.
Já cansei de rotinas e mudei, inovei.
Já cansei das inovações e me peguei de volta à mesmice.
Já vivi e presenciei outras formas de viver.
Alucinantes, loucas, pacatas, atordoadas...
Já tive tempos em que pensava
como eu seria quando crescesse...
Hoje, cresci, vivi e já nem sei mais como.
Já me apaixonei deveras...
Chorei muito por amores perdidos...
Mas nunca sofri por amores verdadeiros
porque até onde sei e já vivi,
amores verdadeiros não fazem sofrer!
Já tive amigos indispensáveis que dispensei.
O que é amizade, afinal?
Cada um tem sua versão e sua forma de expor.
Cada um tem o seu amor.
Cada um vive como quer ou como dá para viver...
Há quem queira até morrer!
Mas o que é mesmo a morte?
E o que vem após dela?
Já arrisquei situações e me arrisquei...
Mas quer saber?
Isto serve como tempero para melhorar a vida!
Já fui inovadora, já fui invencionista.
Mas me vejo às vezes cair em monotonia.
Já vivi incógnitas.
Afinal, é o que sou, é como eu vivo.
Tem a minha personalidade. Minha essência.
E sei que é essencial mantê-la
...

Belma Andrade.

Será pedir demais?

Sabe o que eu quero hoje?
Escutar uma bela canção...
Comer doces sem culpas
e não esperar ninguém chegar,
ninguém ligar...
Parar pra pensar, refletir
e conversar com o vento
que assobia aos meus ouvidos...
Sentir e pisar no farfalhar de folhas secas
soltas, dispersas, como pensamentos
pelo chão...
Ver uma criança sorrindo
e apreciar a delicadeza
e inocência no brilho de seus olhos
que surge ao sorrir.
Olhar ao meu redor
e perceber as cores que me cercam...
Cores quentes,
Cores frias... Cores! Signos!
Olhar para os ponteiros do relógio
e não me preocupar
com seus movimentos...
Tomar um chá, descansar...
Massagear as mãos com folhas dobradas
de cartas que recebi.
Recordar tempos bons
e trazer a tona
esboços de sorrisos alegres
com pessoas felizes
em lugares bonitos...
Sentir cheiro de terra molhada
com chuva de fim de tarde
que quando se vai
e abre as portas para a noite vir,
deixam gotas de orvalho
nas lindas rosas vermelhas
que encantam o meu quintal.
Quero sentir um friozinho bom
e aconchegante.
Sentir os braços da noite
me envolver.
E perceber nas coisas simples
diversos e complexos significados.
Quero então descansar a mente
debaixo de um chuveiro grande
com frias gotas d'água
que levarão consigo pelo ralo
toda energia negativa
e toda tristeza que possa
sujar meu corpo, minha mente, minha alma...
Quero esquecer compromissos agendados,

telefonemas perdidos,

pessoas passadas,

problemas não resolvidos...
Tomar então uma taça de vinho
e sentir seu descer na minha garganta
doce/suave/refrescante...
E por último deitar numa cama quentinha
e sonhar com coisas boas,
num sono profundo e revigorante...
É, é só o que eu quero pra hoje!

Belma Andrade.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Amor narcisista?


Sou minha melhor amiga,
Minha melhor companhia
E minha melhor inimiga.
Brigo comigo mesma, me traio,
Fico sem falar comigo.
Depois faço as pazes,
Mesmo que em silêncio,
E esqueço o que disse.
Julgo-me, me critico,
Acho-me prepotente e individualista.
Mas me amo e não consigo
Viver sem mim.
Conto-me os maiores
E mais íntimos segredos.
Guardo-me, me previno,
Mas me solto e me divirto.
Grito-me, me repreendo,
Mas converso e ouço meus conselhos.
Paro, penso, reflito...
E vejo que os que me cercam
Não chegam aos meus pés
Não podem mais do que eu,
Não são nada comparados a mim.
Quem disse isso?
Ah, eu mesma...
É, acho que eu me amo...
Amor narcisista?
É, pode ser...
Só assim espero menos
Das outras pessoas...
Cobro menos delas,
E o que não faço
E nem quero pra mim,
Também não quero pra elas.
Avalio-me primeiro,
Critico-me primeiro,
Entrego-me a mim primeiro...
Amo-me primeiro.
Só assim me salvo
Ao menos um pouco
De decepções e desamores.
Egoísmo? Frieza?
Que nada, realismo mesmo...
Se colocar os outros
Em primeiro plano,
Acabo me esquecendo de mim,
De amar a mim,
E isso não deve!
É, acho que me idolatro...
Mas quer saber?
Não me importo.
Estou bem aqui, comigo mesma.
Faço-me bem
E me quero bem...
Só assim o resto depois vem...

Belma Andrade